Artigos » 05/04/2018

Um só coração

Parece uma utopia o que os primeiros cristãos realizavam na prática do amor ensinado por Jesus. Todos viviam como fossem um só coração. Tudo o que tinham colocavam em comum. Ninguém passava necessidade (Cf. Atos 4,32-35).

Com as diferenças e pluralidades de ambientes, culturas, tradições e características diferenciadas o desafio da mútua colaboração e distribuição de possibilidades para uma vida digna é muito grande. No entanto, organismos internacionais, nacionais e regionais poderiam existir com a colaboração de governos e instituições que olhassem não só para cada nação e sim também para o benefício da humanidade. O Papa Francisco, na encíclica Louvado Seja (Laudato Sì), fala da proteção ao meio ambiente, que deve ser preservado para o bem da humanidade. Quantas vezes os Pastores da Igreja têm advertido sobre a necessidade de armistícios para os países superarem as guerras! Como é importante haver esforço de países mais desenvolvidos para cooperarem com a superação da fome e da miséria em tantos lugares do hemisfério sul!

A desigualdade exorbitante entre países ricos e pobres clama por compaixão e justiça a quem pode ajudar a diminui-la e não o faz! No próprio Brasil temos desigualdades gritantes em minorias riquíssimas e grandes parcelas pobres. Estas acabam pagando proporcionalmente mais tributos do que aquelas que contribuem pouco para a sociedade em que vivem e usufruem do bom e do melhor! Temos grandes proprietários de terras que não as cultivam e não deixam outros fazê-lo! A reforma agrária é de fundamental importância para se fazer justiça aos que não têm com que cultivar!

Quem tem coração humano-divinizado pelo Filho de Deus, não só fala que tem fé, mas a pratica de verdade, sendo solidário com os mais necessitados e excluídos de vida digna. Todos querem viver em paz, mas esta só se dá no coração de quem tem sensibilidade e pratica a solidariedade com o próximo. Ao contrário, não adiante dizer que tem fé.

Uma vez experimentada na própria vida a certeza da ressurreição de Jesus, a pessoa tem o entusiasmo de demonstrar na prática seu novo encaminhamento de relacionamento com o semelhante, sendo solidário com suas necessidades. Por causa do Filho de Deus ela se torna agente de colaboração com o bem do outro e de toda a sociedade.

Se não temos as condições dos primeiros cristãos de colocar tudo em comum, temos sim condição de sair de nós mesmos para sermos solidários com causas que ajudem a superação de todo o mal na sociedade. Vemos demais a injustiça da miséria e a da má política que injustiça grande parte da população.

A ressurreição de Jesus é ponto de referência essencial para também promovermos a vida digna para tantos que não a têm.

Por Dom José Alberto Moura – Arcebispo de Montes Claros (MG)

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